
Há alguns meses atrás, postei um texto sobre uma obra de Caravaggio baseada na narrativa bíblica do confronto entre Davi e Golias. Peço licença para escrever novamente a respeito de suas pinturas, tendo em vista as exibições de suas obras em Belo Horizonte e em São Paulo nos próximos meses.
A imagem postada no começo deste texto retrata outra cena bíblica transformada em imagem por Caravaggio. Nesse caso, é o momento em que, de acordo com a narrativa bíblica, dois discípulos reconhecem ser Jesus quem está à mesa com eles se alimentando depois de todo um dia de caminhada.
Embora o objetivo desta postagem não seja oferecer uma descrição completa do trecho bíblico, muito menos seria uma tentativa de interpretá-lo, talvez seja útil mencionar alguns pontos da narrativa que ajudam a compreender a cena em sua forma visual.
O encontro entre os dois discípulos e Jesus se dá depois de sua crucificação. Com Jesus morto já há cerca de três dias, os discípulos começaram a entregar-se à descrença, frustração, desapontamento. Eles esperavam que Jesus ressurgisse gloriosamente depois de morrer e, de maneira dramática e grandiosa, assume seu lugar como rei de Israel. Porém, não é o que havia acontecido.
Com esse sentimento de sonhos destruídos, dois dos discípulos separam-se dos outros e se colocam a caminho de uma cidade chamada Emaús. Durante o trajeto até a cidade, um terceiro homem junta-se aos dois que trazem o fracasso estampado no rosto e começa a conversar com eles, explicando que a morte de Jesus não seria o fim.
Contudo, embora o estranho os explicasse que o sonho ainda não havia acabado, ele não passava de um estranho para os dois homens que continuavam desesperançosos. Tudo continuava como estava antes deles começaram a conversar, até que um simples ato do desconhecido mudou toda a história.
Sentados à mesa, já depois do anoitecer, os três preparam-se para sua refeição. A refeição está posta à frente dos três. O terceiro homem reparte o alimento entre eles e agradece a Deus pela refeição. Nesse momento, os dois discípulos reconhecem que, durante todo o tempo, estavam à presença de Jesus, mas ele era um desconhecido para eles. Aqui é que a pintura de Caravaggio faz sua intervenção.
O que há de interessante nessa pintura, que a torna diferente de tantas outras pinturas sobre o mesmo tema, é a simplicidade das figuras retratadas. Os discípulos retratados por Caravaggio em sua pintura são pessoas pobres. Não ostentam roupas caras ou enfeites de ouro. São pessoas do povo comum. Com um pouco de atenção, é até possível reparar em um remendo no cotovelo do homem à esquerda.
De igual modo, Jesus não possui sobre si nenhuma aura de santidade. Não há nada que possa distinguir Jesus dos outros homens. Nem mesmo a representação comum de uma auréola dourada sobre a cabeça de Jesus, como é de costume nas pinturas religiosas, aparece nessa representação. Qualquer santidade que Jesus possa ter está escondida aos olhos, não é facilmente perceptível.
Transformar momentos grandiosos da tradição reigiosa em pequenos atos corriqueiros da vida so ser humano comum é uma das qualidades mais presentes nas obras de Caravaggio. Quando comparada com outra representação da mesma cena, as diferenças motivadas por essa característica do pintor italiano tornam-se gritantes.

Nesta pintura de Philippe de Champaigne, a roupa de Jesus é de veludo. Os discípulos também usam roupas de pano fino. A aura de santidade a emanar de Jesus é retratada visualmente através de um halo dourado sobre sua cabeça. Toda a cena tem a função de dar a Jesus e aos seus discípulos aparência de sublimidade.
No entanto, justamente por sua simplicidade, a pintura de Caravaggio retrata com maestria a narrativa bíblica. Jesus é reconhecido por seus discípulos apenas quando ele reparte o pão à mesa, quando está próximo o bastante daqueles a quem ama para dividir com eles uma refeição e dar graças a Deus por fazê-lo. Também na narrativa bíblica, a divindade de Jesus está escondida e revela-se em suas pequenas atitudes.
Compartilhando a vida do ser humano simples, comum, pobre e mal vestido. É assim que a Bíblia fala sobre Jesus, é assim que Caravaggio fala sobre Jesus. Talvez seja possível reconhecer que tudo o que é sublime e glorioso apenas faz sentido quando, despido da sublimidade e da glória, divide a mesa com o vulgar e mal vestido.



1 comentários:
É interessante notar a discrepância entre uma pintura e outra. Um artista procura focar o Jesus mais simples, do cotidiano, enquanto o outro foca no Jesus divino, o Cristo. Creio que tomando como base o texto do Evangelho Lucano, realmente a gente nota um Jesus que se apresenta não cheio de glória e majestade, mas que se apresenta de uma forma oculta, imperceptível aos olhos comuns. Ou talvez aqui caiba um comentário: Será que o Jesus divino não pode se apresentar de forma simples? Será que o divino se apresenta somente de forma gloriosa e brilhante? Isso me levou a pensar também em como muitas vezes a concepção teológica, ainda que leiga, não está fundamentada na leitura do texto bíblico, mas sim na fé popular que não presta atenção aos detalhes mas, que na maioria das vezes, se contenta com o que é dito de cima de um pulpito ou pintado em um quadro colorido. Excelente texto, digno de nota!
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